Saturday, March 06, 2010

Mad World #6

Esqueci-me desta rubrica (lol) em 2009, mas aqui está de volta.


A Arábia Saudita goza de algum respeito por parte da Europa e América e a imagem que passa para fora é a de um país moderado e não muito distante da chamada civilização Ocidental, devido ao seu empenho na Guerra contra o Terrorismos dos EUA, às constantes visitas de líderes estrangeiros ao país, aos acordos que estes assinam com o rei Abdullah e ao petróleo que tão amavelmente nos vendem. É pena este clima de amizade ser o que passa principalmente nas notícias que normalmente nos chegam desse país, pois pouco tem a ver com a realidade local.

Eu, por um lado, sou bastante crítico das grandes potências do Ocidente. E, por outro, sinto bastante interesse no misticismo inerente ao Oriente e nas suas várias religiões e civilizações históricas. E obviamente percebo que o Médio Oriente, para ser específico, evoluiu num clima diferente do nosso, com outros líderes e filósofos, sofrendo diferentes acontecimentos históricos e portanto tem lógica e é compreensível que hoje viva numa cultura muito distante da nossa. Mas isso não justifica certos que certos mecanismos e processos da sociedade saudita permaneçam inalterados.

Esquecendo hoje a ausência quase completa de direitos humanos no tratamento de presos políticos, esquecendo as penas aterradoras infligidas (justificadas pela Shari'ah) a ladrões que talvez só tenham roubado para se alimentar ou que nem foram bem julgados, esquecendo o perigo em que vivem cristãos, judeus e até xiitas, ou homossexuais, ou republicanos. Até esquecendo a extrapolação da Purdah, que neste país impede duas amigas de irem a um café sozinhas, uma mulher de conduzir ou arranjar emprego facilmente (apenas 5% dos trabalhadores sauditas são mulheres) e de uma família ir a um McDonalds sem ser fechada numa cabine para a mãe não ser vista a comer em público.

Estou então neste post disposto a esquecer tudo isso, pensando que algumas coisas só o fazem por medo do diferente e desconhecido (há uns séculos não era muito diferente em Portugal) ou devido a um olhar mais fanático sobre o Islão. Não concordo com nada obviamente mas estou disposto a esquecer isso por agora. Mas, como raio conseguem fazer eles o que fazem às próprias crianças, às próprias filhas?

Li há dias a história de uma rapariga de 12 anos vendida pelo pai por 16500€ a um homem de 80 anos, para se casar com o segundo. A rapariga foi depois violada e acabou por ter de ser levada para o hospital, alegando o filho-da-puta de 80 anos a seguir que "não sabia que a ia magoar". Não percebo como os "nossos" líderes conseguem continuar a visitar este país misoginista com um sorriso nos lábios quando atrocidades como esta ocorrem sob o olhar aprovativo do governo. Choca-me profundamente como o casamento infantil pode estar tão difundido e pais vendem as próprias filhas para pagar dívidas. E embora os casamentos forçados estejam proibidos no país, é lógico que no enlace entre uma rapariga de 11 anos e um homem de 30 ou 40 a criança não teve qualquer poder de decisão. Apenas o pai dela, que a pode tratar disto a partir dos 9 anos. E depois só restam as mães para lutar pela liberdade das suas filhas (estas situações ocorrem muitas vezes em famílias com pais divorciados e custódia entregue ao pai), mas como as mulheres praticamente não têm possibilidades de participação judicial na Arábia Saudita, muitas vezes a pobre criança acaba por ficar onde está, sem ninguém que a consiga ajudar.

Por muito que tudo custe, pouco ou nada podemos fazer para ajudar de forma directa. Resta fazer a notícia circular e não se deixar perder no meio dos golos do Ronaldo ou das corridas matinais do Sócrates no estrangeiro. A divulgação não só destas situações mas de todas aquelas que com o nosso coração sentimos que não deviam ocorrer não podem ser esquecidas, não se podem deixar perder, têm de ser divulgadas. É preciso mostrar indignação, transmitir aos amigos, mandar cartas ao Governo e Assembleia da República a exigir a sua actuação. Todos podemos ajudar a fazer a diferença.

De certa forma relacionado com o tema, comecei a visitar estes blogs há umas semanas e aconselho a todos os que estejam interessados em informar-se sobre a vida de mulheres na Arábia Saudita:

E já por isso, deixo os links para os restantes Mad Worlds:
#1, #2, #3, #4 e #5

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