Saturday, October 04, 2008

Mad World #4

We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty, and the Pursuit of Happiness.

Falta um mês para decorrerem as eleições presidenciais nos Estados Unidos da América.
Após uma das piores épocas na história deste país, com um ataque terrorista numa escala nunca vista, uma crise humanitária provocada por uma tempestade mal prevenida, duas guerras que já provocaram centenas de milhares de mortos, entre muitas outras coisas, George W. Bush vai definitivamente sair da Casa Branca.

Há dois candidatos para o lugar de próximo presidente dos EUA e qualquer um deles vai tomar melhor conta do país que o seu antecessor: John McCain e Barack Obama.
Embora McCain (que foi POW no Vietnam mais de 5 anos) tenha muito mais experiência que o quase novato Obama, sou contrário a algumas das suas posições politicas e por isso desejo uma vitoria do Senador do Illinois. Além das politicas (em muitos campos completamente contrárias) e da idade (Obama tem 47 anos, McCain 72) há outro factor muito importante que separa os dois homens: a cor da pele.

O post começa realmente aqui :O

Para mim há poucas coisas que um ser humano pode fazer que sejam piores do que desrespeitar ou humilhar outro só por este ter uma cor ou religião diferente.

A frase no inicio deste post foi escrita na Declaração de Independência dos Estados Unidos, da autoria de Thomas Jefferson e datada de 1776. Para mim, a eleição (se ocorrer) de um negro a líder da América vai ser algo extraordinário. A Declaração é um dos documentos mais importantes e mais estimados nos EUA e a frase citada é a parte mais conhecida desse mesmo documento. O facto de os Estados Unidos terem sido desde a criação desta Declaração um dos países mais racistas do 1º Mundo trás um pouco de ironia à coisa.

Não me esqueço da Alemanha Nazi, nem da Rússia Estalinista nem mesmo da África do Sul do Apartheid. No entanto, nestes países, o racismo e a xenofobia surgiram em regimes ditatoriais (embora a África do Sul fosse uma "República" na época, apenas brancos podiam votar). Obviamente isto não é desculpa, mas referi-o porque os EUA são desde sempre uma República e tinham aquele documento. E no entanto, é exactamente dos EUA que estas fotos vêm:



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Esta é apenas uma pequena amostra do respeito que muitos americanos brancos consagraram ao documento que literalmente fundou o seu país. E engane-se quem pensar que as imagens são muito antigas. Como toda a gente sabe, a marcha pela Liberdade de Martin Luther King, Jr. ainda nem há 50 anos aconteceu. E engane-se também quem pensar que o racismo acabou nos Estados Unidos nessa altura. Sem falar dos já tristemente conhecidos casos de assassínios e espancamentos levados a cabo pelo KKK e outras organizações racistas americanas, os casos seguintes aconteceram, na minha opinião, apenas pelo uso de perfil racial por parte de forças governamentais cuja função é supostamente proteger os cidadãos:

No dia 4 de Fevereiro de 1999 Amadou Diallo, um guineense de 23 anos, estava a chegar a casa, no Bronx (NYC) quando quatro polícias (à paisana) se aproximaram dele, por aparentemente o terem confundido com um violador procurado (que entretanto tinha sido capturado). Quando estes se aproximavam, Amadou correu pelas escadas do seu prédio, em direcção à porta. Ao pensarem que ele ia tirar uma arma do casaco, os agentes começaram imediatamente a disparar, parando após 41 balas. Diallo morreu. O que ele estava a tirar do bolso era a carteira. Os policias foram a tribunal e foram ilibados de todas as acusações.

Ousmane Zongo, emigrante do Burkina Faso, reparava instrumentos musicais e comerciava arte em New York. No dia 22 de Maio de 2003, viu um polícia (disfarçado de carteiro) entrar no armazém onde trabalhava. Zongo ficou assustado e confuso quando viu o agente (que não estava em uniforme) sacar da sua arma e começou a fugir. Ao chegar a um beco sem saída e sem qualquer arma com que pudesse atacar o policia, foi atingido por quatro tiros. Ousmane deixou dois filhos e a mulher na terra natal. O agente não foi preso.

Patrick Dorismond e alguns amigos estavam ao pé de um bar, na madrugada de 16 de Março de 2000, quando alguns polícias vestidos à civis se aproximaram e perguntaram onde podiam comprar marijuana. O afro-americano, segurança de profissão e pai de duas crianças, gritou que não era um traficante de droga e uma luta entre os dois grupos começou. Durante esta, um dos agentes disparou uma bala que levou à morte de Dorismond pouco depois. Poucos dias depois, Rudy Giuliani, Mayor de New York na altura, publicou o registo de delinquência juvenil de Patrick, supostamente para mostrar que este não era nenhum "menino do coro" (sic), o que causou sentimentos de ira e revolta na comunidade a que este pertencia. Foi descoberto depois que, além de ter andado na mesma escola católica de Giuliani, Dorismond tinha sido de facto um menino do coro. O policia que disparou foi libertado após ser considerado inocente da sua morte no julgamento.

No dia 12 de Outobro de 1995 Johnny Gammage estava a andar de carro quando foi mandado parar por um carro de policia. Isto aconteceu porque o policia que estava a seguir o afro-americano há mais de 2 quilómetros aparentemente estranhou o facto de Gammage estar constantemente a abrandar a marcha do seu veiculo (embora este apenas o fizesse para se manter no limite de velocidade). Enquanto um dos policias estava a ver os documentos de Gammage, outro viu que este estava dentro do carro a falar ao telemóvel e por isso apontou-lhe a lanterna e a pistola. Outro policia chegou, apontou-lhe a arma igualmente e obrigou o a sair do carro. Quando este o fez, o policia atirou-lhe o telemóvel e agenda (que Johnny tinha nas mãos) para o chão. Em seguida, os cinco agentes presentes atacaram-no, atirando-o ao chão e tentando algema-lo. Dois dos policias ficaram em seguida em cima dele, o que levou a que Gammage asfixiasse. Nenhum dos policias foi preso, tendo um deles até continuado na força policial a que pertencia e recebendo uma promoção algum tempo depois. As últimas palavras de Johnny foram "Keith, Keith, I'm only 31.", falando para um dos polícias que estava em cima de si.

Em 1997, Abner Louima estava num bar em Brooklyn quando uma luta começou entre alguns policias e clientes e trabalhadores do bar. Um dos policias levou um murro e, achando que tinha sido o emigrante do Haiti a ataca-lo, prendeu Louima. Os agentes espancaram Louima com os cacetetes, walkie-talkies e os próprios punhos enquanto se dirigiam para a esquadra no carro. Após ser colocado numa cela, continuou a ser espancado e foi eventualmente sodomizado com um desentupidor pelo agente que pensava que Abner o tinha atacado, tendo depois de ser submetido a várias operações para tratar as feridas internas com que ficou.


O video de cima mostra o afro-americano Rodney King a ser espancado por quatro policias após ser mandado parar quando estava em excesso de velocidade, em Março de 1991. Foi captado por alguém que estava num apartamento nas proximidades. A única razão dada para lhe ter terem começado a bater foi o facto de lhes parecer que ele estava drogado com um alucinogéno. Os policias foram a julgamento mas não foram presos.

Outros casos de brutalidade policial aqui e provas do racismo prevalente na sociedade americana aqui.

Estes casos de brutalidade policial só servem para mostrar que o racismo ainda existe naquele que se considera a si próprio o país mais democrático do Mundo. Embora muitos possam pensar que tal é ridículo ou que há questões muito mais importantes para falar, eu acho que as eleições de 4 de Novembro podem representar (entre outras coisas também muitíssimo importantes) algo tão importante para a erradicação do racismo como a marcha de Martin Luther King nos anos 60. É altura do povo americanos eleger então aquele que vai ser não o próximo presidente da Terra, como muitos dizem, mas sem dúvida um dos chefes do Planeta Azul de Al Gore. Esperemos que vencedor seja o homem que pode fazer realmente a diferença.

1 comment:

Inês_rocks! said...

http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Internacional/Interior.aspx?content_id=112897&dossier=Elei%C3%A7%C3%B5es%20americanas