"And so I drank one, it became four. And when I fell on the floor I drank more", para citar Morrissey (não é de propósito, ocorreu-me do nada, devo estar no meu período The Smiths deste trimestre). E andava eu nisto quando achei que maravilhoso mesmo era fazer um post sobre tal experiência. Inspirando-me no facto de vários membros da minha família terem a mania que são enólogos, andando por aí a mostrar diplomas que supostamente comprovam tal coisa e a demorarem duas horas a escolher o vinho da noite sempre que vamos jantar fora e whatnot, decidi então que a maneira de tornar este post algo tão poderoso que desafiasse as leis naturais era fazer dele uma prova de vinho. O facto de apenas uma das bebidas que usei para molhar os lábios ser um vinho não passa de uma minúcia de suprema insignificância.
O copo empregue na prova foi um IKEA octogonal fabricado na Rússia. O gelo que usei é feito com água da torneira da zona de Campolide em moldes em forma de estrela. A temperatura ambiente durante a degustação, que ocorreu em duas noites, rondou os 18ºC. Os dados e pontuações foram inscritos num caderno pautado Moleskine de 2007 antes de serem passados a limpo para aqui.
Havana Club Añejo 3 Años (Rum, 40%, Cuba)
Olhos - brilhante, entre o transparente e o dourado
Nariz - ou muito me engano ou o que cheirei foi banana e baunilha, com o álcool a aparecer primeiro mas depois a suavizar e dar espaço aos outros aromas
Boca - estranhamente doce, mais uma vez parece baunilha, rodeada por álcool que não permanece mais tempo do que o necessário para voltar a levar o copo aos lábios
18 valores
51 (Cachaça, 40%, Brasil)
Olhos - Absolutamente transparente e de viscosidade nula, aparenta água
Nariz - não muito forte, moderadamente agradável mas com pouco para descobrir, não prejudica mas também não é um chamariz
Boca - como no cheiro, não há muito para descobrir de sabores, estranhamente o álcool não se nota muito, fácil de beber
12 valores
Pisang Ambon (Licor, 21%, Holanda)
Olhos - um verde mais forte do que o de absinto, fluorescente, a cor que todas as bebidas deviam ter, numa garrafa quadrada que também se distingue pela positiva
Nariz - muito agradável, distingue-se facilmente o odor a banana embora não seja demasiado forte e dê para encontrar umas laranjas pelo meio
Boca - quantidade ideal de banana, o álcool pouco se nota, pode ser perigoso devido à facilidade com que se volta e volta e volta a encher e esvaziar o copo
19 valores
Ti Maria (Ponche, 30%, Santiago - Cabo Verde)
Olhos - um pouco viscoso, algueres entre o branco e o beje, não chama especialmente a atenção
Nariz - um pouco apagado, o alcool é o cheiro proeminente e também se nota que o ananás está lá, mas o coco ainda não se encontra nesta fase
Boca - mais uma vez a viscosidade é a primeira coisa que se nota, mas logo no momento a seguir aparecem o ananás e o coco e com o álcool pouco presente aqui, desce suavemente
14 valores
William Lawson's Aged 12 Years (Whisky, 40%, Escócia)
Olhos - ouro líquido, garrafa baixa, larga e quadrada que também se destaca
Nariz - suave, nota-se talvez um pouco de maçã, mas pouco mais
Boca - muito fresco, a fruta impera, com cerejas em primeiro plano, de final prolongado
17 valores
Eristoff Black (Vodka, 20%, França)
Olhos - completamente preto e embora seja bastante líquido não deixa de fazer lembrar petróleo
Nariz - o cheiro a amoras é forte e dominante, só por aqui nem dá para perceber que tem álcool
Boca - muito fresco, mais uma vez as amoras são as estrelas, o álcool esta tão esbatido que dificilmente alguém que fizesse uma prova cega com isto diria que era vodka, bebe-se tão facilmente como água
13 valores
Brandymel (Licor, 30%, Portugal)
Olhos - a garrafa arredondada baixa e larga é esverdeada o que não permite ver grande coisa mas com pouca surpresa se constata que é cor de mel após se derramar líquido para o copo, embora seja bastante fluído
Nariz - se eu distingui alguma coisa além do álcool foi apenas o cheiro a madeira
Boca - muito doce, muito aprazível, aqui o álcool é quase indistinguível, até se sente a viscosidade do mel
18 valores
Triple Sêco Central (Licor, 30%, Portugal)
Olhos - garrafa de um litro quadrada e larga com um ar bastante clássico, transparente com pequenos pedaços brancos de qualquer coisa a flutuar lá dentro
Nariz - pura e simplesmente laranjas
Boca - bastante doce, as laranjas menos presentes no paladar do que no odor, parece quase um xarope, mais um que se bebe como água
16 valores
Dómúz (Licor, 20%, Portugal)
Olhos - castanho transparente, na garrafa parece castanho escuro, um pouco espesso
Nariz - grãos de café
Boca - café adocicado com um toque muito leve de álcool
16 valores
Licor De Hortelã (Licor, 32%, Santo Antão - Cabo Verde)
Olhos - verde muito claro, transparente
Nariz - o cheiro faz mais lembrar uma mistura de laranjas e café do que hortelã e não é particularmente apelador
Boca - incrivelmente fresco, doce, o álcool só surge mesmo no fundo da garganta
15 valores
Oppidum (Licor, 19%, Portugal)
Olhos - castanho avermelhado com ginjas, inalcançáveis, a repousar no fundo da garrafa
Nariz - os aromas, pouco presentes, são os de ginjinha e madeira
Boca - demasiado amarga, sinceramente eu faço ginjinhas melhores...
9 valores
Maracujá Do Ezequiel (Licor, 26%, Açores)
Olhos - castanho escuro, numa garrafa de 50ml
Nariz - o único cheiro que identifiquei foi tabaco, que depois se desvaneceu
Boca - o problemas destas micro-garrafas de 50ml é que nem chegam a meio copo, o que permite chegar a poucas conclusões: viscoso e muito doce, o maracujá não chega a aparecer
11 valores
Ferreirinha 1989 Reserva Pessoal (Vinho, 19,5%, Portugal)
Olhos - cor de mel, obviamente diluído
Nariz - um pouco apagado, cereja e madeira
Boca - depois de tudo o resto, aqui se percebe porque há muito mais provas para vinhos do que para licores ou whiskys: na minha (já inebriante) ignorância descobri um primeiro toque de cerejas e amoras, depois pareceu-me estar a saborear flores muito frescas e do final complexo só consigo dizer que é bastante longo
18 valores
Gold Strike (Licor, 50%, Holanda)
Olhos - entre o transparente e o amarelo, com centenas de flocos de ouro puro (24 quilates) a flutuar, numa garrafa octogonal
Nariz - bastante presente, canela e álcool
Boca - incrível, pedaços de ouro a aterrar pela língua, fresquíssimo, fortíssimo, tanto em termos de álcool como de canela, isto chega para fazer uma brilhante noite
19 valores
Marie Brizard Curaçao (Licor, 35%, França)
Olhos - castanho claro, sem muito mais que se lhe diga
Nariz - forte, uma excelente mistura de laranjas doces e álcool
Boca - bastante doce, o álcool permanece longo tempo na boca
17 valores
Nota final
Bem, parece que ser a destilaria mais velha do Mundo representa de facto algo, ou não tenham sido as bebidas da Lucas Bols B.V, da Holanda, as únicas que achei dignas de um 19. Ver se começo a levar o Moleskine quando for sair para fazer um post para cocktails também.
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