Friday, April 19, 2019

some teen day

Prestes a chegar aos 30, com a desculpa de organizar este gabinete de curiosidades, dei por mim a reler praticamente todos os posts deste blog. Esperava encontrar algumas referências directas ao meu dia-a-dia à época, ao que me interessava e do que gostava, mas em geral a escavação arqueológica desenterrou principalmente tentativas muito totós de ser engraçado (acho que o meu humor, mesmo assim, funcionaria melhor verbalmente) e exposições demasiado lamechas para um espaço online. No fundo, isto era muito mais um simples diário do que eu me lembrava, e do que na altura julgava que era.

Tudo o que aqui está sou eu, claro. É o que eu era. Passados 15 anos do início deste blog, quase uma década desde que aqui escrevi pela última vez, estou na posição a que invariavelmente quase todos acabamos por chegar: que parvo, que vergonha alheia… Não é de todo o que eu queria ou esperava encontrar aqui mas, passado o choque inicial, reconheço-me. E, com algum esforço, vou encontrando (em maior quantidade consoante o avançar dos anos) laivos do que sou hoje, se bem que numa mistura caótica, sentimental e descontrolada. À procura de mim mesmo sem o saber.

Prestes a chegar aos 30, estou quase no mesmo ponto emocional em que me encontrava quando estava prestes a chegar aos 21, por isso acho que não vale muito a pena tentar um resumo dos últimos tempos. Ao reler os posts dos últimos 2 ou 3 anos dessa época, e pensando no meu interesse profundíssimo por astrofísica que se iniciou pouco depois, sinto que estou agora um pouco mais desligado do mundo e do Universo. Não totalmente, mas parece que as minhas preocupações quotidianas da época (educação feminina, desigualdades sociais, racismo, os astros, o equilíbrio espiritual, o desenvolvimento físico e intelectual, etc) passaram da urgência da acção para alguma letargia de fundo. Hoje, em vez de ser tudo JÁ, DEPRESSA, AO MESMO TEMPO E COM TODA A FORÇA, é cada coisa a seu tempo e calmamente. Não quero envelhecer desta maneira.

Mas afinal, o que esperava encontrar mais por aqui e nada? Algo que também não se modificou dos 21 aos 30: o desespero de agarrar a adolescência que só se esfuma cada vez mais. Talvez isso vá mudar um dia, mas esse dia não é hoje.

Comecei a andar de skate meses antes de abrir este estabelecimento, e pelo menos desde que descobri os Nirvana (e, no fundo, o prazer tangível de ouvir a minha música) que dedicava longas horas aos canais de música da TV Cabo (onde, além dos videoclips e documentários, também não me escapava um Pimp My Ride e primos), mas acima de tudo a minha vida girava à volta de computadores e jogos. Numa qualquer madrugada de fim-de-semana, nas quais estendia a medo as horas aconselháveis de écrana, saí do quarto com pés-de-lã , tentando ir ao WC sem a minha mãe ouvir, e pretendi com toda a convicção clickar num qualquer f5 mental para um quick save. Um momento de alienação digital totalmente inédito e irrepetível mas que é revelador do ponto a que a coisa chegava. As noites eram exaustas a ler artigos sem fim na Wookiepedia, a discutir em fóruns o mais recente episódio de Dragon Ball ou no messenger, com um grupo mais selecto, o de 24, ou simplesmente a jogar, tudo sempre acompanhado por música difundida pelos add-ons do msn. As manhãs, entre as aulas, serviam para relembrar memes do YTMND ou repetir ao limite o AYBABTU e participar nas celebrações rápida mas quotidianas das 1138 e 1337 (pensando agora, os jogos de 31, de guelas e mesmo de lutas LARP Pokémon tornaram os intervalos da Marquesa de Alorna infinitamente menos geek que os do Maria Amália, mas por outro lado foi logo aí que o mIRC até invadiu as salas de aula).

As tardes, que ocasionalmente começavam com as tentativas benignas do meu avô de introduzir um pouco de Homem nestas veias com uns tchin tchins de “mistura” com amêndoa amarga, quando na “nossa” casa - e já não na da avó – eram passadas a repetir incansavelmente com o meu irmão os mesmos demos de PS2, ou a gozar com ele por sempre que lhe era dada a liberdade da sala se dedicar invariavelmente ao Ratchet & Clank (vá, também fez girar os DVDs dos Gato Fedorento vezes sem fim). Outras dividiam-se pelo Chiado, entre sandes nas escadas ao lado dos Armazéns, passagens pela BDMania, FNAC e Good n’ Evil (uns planos de comprar uma Millenium Falcon e uma vitrine para rechear de outras figuras felizmente nunca avançou, apesar de parte considerável da mesada ter sido gasta em bandas-desenhadas) e momentos tensos de carinho e amor incompreendido no elevador do Carmo. A excepção à nerdice consistia em duas ou três idas mensais aos cinemas e fatias de pizza das Amoreiras, a maior fonte de uma cultura mais abrangente além do Seinfeld e Will Smith. A companhia da maioria das aventuras fora de casa, e na escola, com quem me encontrava 10 minutos antes do toque na esquina da Rua de Campolide, era invariavelmente a mesma. E assim se passava um dia de adolescente.

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