Prestes a chegar aos 30, com a desculpa de organizar este gabinete de curiosidades, dei por mim a reler praticamente todos os posts deste blog. Esperava encontrar algumas referências directas ao meu dia-a-dia à época, ao que me interessava e do que gostava, mas em geral a escavação arqueológica desenterrou principalmente tentativas muito totós de ser engraçado (acho que o meu humor, mesmo assim, funcionaria melhor verbalmente) e exposições demasiado lamechas para um espaço online. No fundo, isto era muito mais um simples diário do que eu me lembrava, e do que na altura julgava que era.
Tudo o que aqui está sou eu, claro. É o que eu era. Passados
15 anos do início deste blog, quase uma década desde que aqui escrevi pela
última vez, estou na posição a que invariavelmente quase todos acabamos por
chegar: que parvo, que vergonha alheia… Não é de todo o que eu queria ou
esperava encontrar aqui mas, passado o choque inicial, reconheço-me. E, com
algum esforço, vou encontrando (em maior quantidade consoante o avançar dos
anos) laivos do que sou hoje, se bem que numa mistura caótica, sentimental e
descontrolada. À procura de mim mesmo sem o saber.
Prestes a chegar aos 30, estou quase no mesmo ponto emocional
em que me encontrava quando estava prestes a chegar aos 21, por isso acho que
não vale muito a pena tentar um resumo dos últimos tempos. Ao reler os posts
dos últimos 2 ou 3 anos dessa época, e pensando no meu interesse profundíssimo
por astrofísica que se iniciou pouco depois, sinto que estou agora um pouco
mais desligado do mundo e do Universo. Não totalmente, mas parece que as minhas
preocupações quotidianas da época (educação feminina, desigualdades sociais,
racismo, os astros, o equilíbrio espiritual, o desenvolvimento físico e
intelectual, etc) passaram da urgência da acção para alguma letargia de fundo.
Hoje, em vez de ser tudo JÁ, DEPRESSA, AO MESMO TEMPO E COM TODA A FORÇA, é
cada coisa a seu tempo e calmamente. Não quero envelhecer desta maneira.
Mas afinal, o que esperava encontrar mais por aqui e nada?
Algo que também não se modificou dos 21 aos 30: o desespero de agarrar a
adolescência que só se esfuma cada vez mais. Talvez isso vá mudar um dia, mas
esse dia não é hoje.
Comecei a andar de skate meses antes de abrir este
estabelecimento, e pelo menos desde que descobri os Nirvana (e, no fundo, o
prazer tangível de ouvir a minha
música) que dedicava longas horas aos canais de música da TV Cabo (onde, além
dos videoclips e documentários, também não me escapava um Pimp My Ride e
primos), mas acima de tudo a minha vida girava à volta de computadores e jogos.
Numa qualquer madrugada de fim-de-semana, nas quais estendia a medo as horas
aconselháveis de écrana, saí do quarto com pés-de-lã , tentando ir ao WC sem a
minha mãe ouvir, e pretendi com toda a convicção clickar num qualquer f5 mental
para um quick save. Um momento de alienação digital totalmente inédito e
irrepetível mas que é revelador do ponto a que a coisa chegava. As noites eram
exaustas a ler artigos sem fim na Wookiepedia, a discutir em fóruns o mais
recente episódio de Dragon Ball ou no messenger, com um grupo mais selecto, o
de 24, ou simplesmente a jogar, tudo sempre acompanhado por música difundida
pelos add-ons do msn. As manhãs, entre as aulas, serviam para relembrar memes
do YTMND ou repetir ao limite o AYBABTU e participar nas celebrações rápida mas
quotidianas das 1138 e 1337 (pensando agora, os jogos de 31, de guelas e mesmo
de lutas LARP Pokémon tornaram os intervalos da Marquesa de Alorna
infinitamente menos geek que os do Maria Amália, mas por outro lado foi logo aí
que o mIRC até invadiu as salas de aula).
As tardes, que ocasionalmente começavam com as tentativas
benignas do meu avô de introduzir um pouco de Homem nestas veias com uns tchin
tchins de “mistura” com amêndoa amarga, quando na “nossa” casa - e já não na da
avó – eram passadas a repetir incansavelmente com o meu irmão os mesmos demos
de PS2, ou a gozar com ele por sempre que lhe era dada a liberdade da sala se
dedicar invariavelmente ao Ratchet & Clank (vá, também fez girar os DVDs dos
Gato Fedorento vezes sem fim). Outras dividiam-se pelo Chiado, entre sandes nas
escadas ao lado dos Armazéns, passagens pela BDMania, FNAC e Good n’ Evil (uns
planos de comprar uma Millenium Falcon e uma vitrine para rechear de outras
figuras felizmente nunca avançou, apesar de parte considerável da mesada ter
sido gasta em bandas-desenhadas) e momentos tensos de carinho e amor
incompreendido no elevador do Carmo. A excepção à nerdice consistia em duas ou
três idas mensais aos cinemas e fatias de pizza das Amoreiras, a maior fonte de
uma cultura mais abrangente além do Seinfeld e Will Smith. A companhia da
maioria das aventuras fora de casa, e na escola, com quem me encontrava 10 minutos
antes do toque na esquina da Rua de Campolide, era invariavelmente a mesma. E
assim se passava um dia de adolescente.
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