Há certas coisas que não me posso coibir de fazer. Sendo eu um dos maiores especialistas ibéricos tanto na obra de George Orwell como na discografia dos Muse uma delas é obviamente presentear quem aqui vier com um roteiro para uma superior auscultação do trabalho em que estas duas entidades finalmente chocaram.
No ano de 1949 Orwell editou Nineteen Eighty-Four, o melhor livro que já li. Por essa mesma razão ainda não me senti capaz de sequer tentar começar uma review no blog que tenho de propósito para me entreter a fazer essas coisas. Espero no futuro próximo ter coragem de me dedicar a isso.
No ano de 2009, meio século depois, os Muse editaram The Resistance o (segundo) melhor álbum (deste ano) que já ouvi. Matthew Bellamy releu o livro de Orwell recentemente e tirou dele a inspiração para este novo álbum. Na verdade não é a primeira vez que os Muse olham para Orwell à procura de ajuda: a música Citizen Erased, um dos pontos altos do magnífico Origin Of Symmetry, é o exemplo mais óbvio da ligação já existente, escrita sobre um conceito importante do livro de George Orwell, o de impessoa.
Na verdade eu não fiz só um guião. Antes, conto a história de Winston Smith, o personagem principal da obra-prima de George Orwell, do ponto de vista das letras e música do álbum. Um aviso antes de começar: logicamente as próximas linhas têm spoilers e não aconselho ninguém que não tenha lido o livro a sequer espreitar (nem vale a pena aliás, pois quase de certeza não vão perceber absolutamente nada).
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Título
Não há muito a dizer sobre o título. Como logo numa primeira audição do álbum se pode constatar, este é grandemente sobre resistência a uma ditadura. Simples e directo portanto. Penso que pretende ser uma ligação a "The Brotherwood", o nome da resistência no livro, título que eu teria sem dúvida preferido.
Capa
Aqui parece haver mais ligações à música final do álbum do que ao livro. A figura humana representa Winston, no fim de tudo, a afastar-se da Terra e dirigir-se para um local melhor, a fugir do Passado, passando através de todos os obstáculos (os prismas hexagonais). Na análise dessa música o significado desta capa torna-se mais explícito.
Uprising
Winston, membro comum do partido externo, decide começar o seu diário ["Uprising"]. Este é o passo decisivo para pôr em prática a revolta ["Come let the revolution takes its toll"; "Rise up and take the power back"] que já há 7 anos pairava na sua mente. Revolta contra o Grande Irmão, contra a ditadura, contra as restrições, contra o controlo ["Keep us all dumbed down"] absoluto de tudo, até da verdade ["Hope that we will never see the truth around"; "All the green belts wrapped around our minds and endless red tape to keep the truth confined"]. Winston concilia os objectivos da sua revolta ["They will not force us, they will stop degrading us, they will not control us"], pensa em unir-se à organização rebelde clandestina Fraternidade ["We have to unify and watch our flag ascend"] e sente-se esperançado ["We will be victorious"] (sentimento em geral ausente do livro).
Sendo a música acima a única sobre a Primeira Parte da obra, esta é uma boa altura para terminar também a primeira parte deste mapa.
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